Texto de: Teresa Maria Frota Haguette
O Interacionismo teve origem no fim
do século XIX, mais especificamente na sociologia de Charles H. Cooley, W. I.
Thomas e George H. Mead, sendo que dos três nomes mencionados, houve maior
protagonismo na pessoa do Geroge H. Mead. Havia alguns pontos em comum entre
eles, no entanto a obra de Mead foi a que mais contribuiu com o Interacionismo.
A obra de maior importância de Mead
foi Mind, Self and Society, com foco na área da interação
simbólica. Sua preocupação pautava-se em ilustrar suas proposições a partir de
fatos da vida cotidiana. Sua teoria se opôs ao behaviorismo, propondo uma
instintiva investigação compreensiva de aspectos do comportamento.
Para Mead, toda atividade grupal se
baseia no comportamento cooperativo. No tocante ao humano, sua associação não
surge do acaso, em síntese envolve uma resposta as intenções dos outros no
contexto presente e futuro. O elemento fundamentador é o consenso por meio dos
sentidos compartilhados. Na medida em que os seres humanos conseguem interagir
a partir da compreensão dos seus próprios gestos, configura-se uma relação,
isso não quer dizer que as respostas são homogêneas, cada um responde de uma
forma diferente. Desta forma o comportamento do ser humano é uma replicação do
que foi internalizado nesta relação. Portanto toda e qualquer unidade de ação,
seja ela um indivíduo, uma familia, uma escola, uma igreja, etc., é construída
a luz de uma situação especifica, tudo irá passar pela interpretação de uma
situação.
O que Mead quis dizer é que todo ser humano
possui um self, a forma com que ele
age socialmente com as outras pessoas é a forma com que age consigo mesmo, logo
é possível afirmar que o ser humano é uma construção daquilo que está ao seu
redor, ele absorve tudo o que está a seu alcance visual e audível e passa a
construir-se a se próprio desde os primeiros sinais despertados no início da
vida. Interpretando o texto de Mead, o Meltzer vai dizer que o self representa um processo social
existente no indivíduo, aonde o eu, é
a tendência impulsiva do indivíduo e o mim,
representa o outro incorporado ao
indivíduo.
Dois pontos é importante serem
considerados, o primeiro é de que o self não
é um ato social estático, ele evolui e se modifica na medida em que há mudança
e alterações nos padrões das interações, assim como, o self, não é um agente passivo sujeito aos impulsos e estímulos. Troyer
vai afirmar que o self, está
primariamente procurando certos estímulos, e que qualquer coisa que façamos
determinará um estimulo que influenciará nas atitudes e ações.
Mead afirma que o sistema nervoso
central e o córtex são indispensáveis para o desenvolvimento da mente, sem o
bom funcionamento destes o self é comprometido. No entanto o organismo sozinho
tampouco irá lograr êxito neste contexto, é a interação destes dois elementos
que dará forma inteligente ao comportamento. A mente é social, e seus
funcionamento é seletivo, ou seja, ela age de forma intencional selecionando
aquilo que é relevante e desprezando o que não. O ambiente circundante do ser
humano é constituído por “objetos”, porém diferentemente do animal irracional o
humano tem a capacidade de selecionar o que lhe aprazível para constituir seu
próprio ambiente e isso se dá por meio da percepção.
Apesar de ser considerada original
e coerente a obra de Mead não passou desapercebida dos críticos, Meltzer chama
a atenção para a ausência de uma proposta metodológica por exemplo e da falta
de evidencia sistemática para seus posicionamentos. Em contrapartida Meltzer
considera que as contribuições foram significativas, dando destaque para o self, a concepção de “ato”, e a maneira como os indivíduos
constroem seu mundo comum, ou seja, o ser humano não é um ser passivo que
responde aos estímulos externos. Vale ressaltar que muitas destas críticas
estão ancoradas no contexto da psicologia social, mas não no tocante a
sociologia.
Coube a H. Blumer aportar
relevância aos estudos clássicos da abordagem interacionista que lhe faltava
apresentar clareza dos pressupostos básicos. Numa tentativa de ser fiel al
máximo a Mead, no tocante a natureza da sociedade e da vida em grupo, a
natureza dos objetos, da ação humana e da ação conjunta, Blumer apresenta três
premissas básicas do Interacionismo simbólico: se algo tem sentido para mim,
logo me manifesto; o sentido surge primariamente da interação social; o
processo de interpretação pode modificar e manipular o sentido.
Blumer afirma que o sentido não é
intrínseco ao ser, mas decorre da interação entre as pessoas, e que no
Interacionismo simbólico o sentido é fundamental.
Ainda neste contexto, Blumer ressalta que há um processo de interação de si
consigo mesmo, a pessoa engajada ou engajando-se em um processo de comunicação
consigo mesma. A partir daí manipula-se os sentidos, checa, suspende, reagrupa
e a interpretação passa a ser um processo formativo.
A sociedade humana é um grupo de
pessoas que interage, que estão em ação, assim estruturas e organizações são
estabelecidas. A sociedade consiste de indivíduos interagindo, e as atividades
são respostas de um ao outro, logo pode-se afirmar que o comportamento produz o
próprio comportamento. A compreensão da ação das pessoas perpassa identificação
dos objetos do mundo das pessoas, estes objetos são suas criações sociais que
se fundamenta nas interpretações oriundas da interação humana. O ato de
interagir pressupõe que o ser humano possui um self, e a forma como nos vemos é
a forma como os outros nos veem e nos define.
O que nos difere do animal é
justamente nossa capacidade de fazer “indicações” para si mesmos, portanto ao
estar diante dos objetos da vida se faz necessário interpreta-los e dar uma
resposta em forma de atitude. Tudo o que ignora o processo de auto-interação,
está em desacordo com a perspectiva interacionista, pois para Blumer suas ações
são construídas a partir do que se nota, e de como eles avaliam e interpretam o
que se nota, assim como, o que será projetado.
No tocante a “ação conjunta” ou
coletiva, Blumer afirma que as normas são as mesmas, não importa se a realidade
se apresenta de forma individual ou coletiva. Ele firma que não são as regras
que sustentam a vida em grupo, mas é o processo social de vida em grupo que
cria e mantém as regras.
Blumer afirma que não há um
posicionamento metodológico definido nos escritos de Mead, Dewey, Thomas, Park,
James, Cooley, dentre outros. No entanto ele assume a responsabilidade de
identificar os princípios metodológicos norteadores no caso da ciência
empírica. Ao invés de filosófica, ele pretende-se empírica, algo verificável
sobre a vida humana em grupo e sobre a conduta humana. A metodologia se refere
aos princípios que estão subjacentes, e direciona a tudo o que possui caráter
persistente. Um ponto importante aqui é a elaboração de uma concepção que se
distancia da discussão de métodos e técnicas. Blumer então levanta 6 pontos que
segundo ele são indispensáveis à ciência empírica: uma visão prévia do mundo
empírico sob estudo; a elaboração de questões do mundo empírico convertidas em
problemas; a determinação dos dados a serem coletados; A determinação de
relações entre os dados e o uso de conceitos.
Para Blumer as implicações
metodológicas da visão interacionista se sumariza em quatro concepções
centrais: ao compreenderem os sentidos dos objetos que compreendem seu mundo
elas agem com base nesses sentidos; a associação das pessoas se dá basicamente
sobre a influência indicativa e interpretativa de umas para com as outras; ao
notarem, interpretarem e avaliarem, os atos sociais se materializam; as
inter-relações são questões moventes e não estáticas.
Blumer afirma que a realidade
social não pode ser percebida através de conceitos definidos, mas de conceitos
sensibilizantes, contrariando Kuhn que busca previsões universais da conduta
humana. Blumer considera o comportamento humano indeterminado e imprevisível,
visão que contraria a visão da escola de IOWA. Uma outra divergência entre os
dois é que para Kuhn no tocante ao self, os
padrões são estáveis e previsíveis, já Blumer a considera dinâmica.
§ Construcionismo:
Etnometodologia
A Etnometodologia possuía como foco central apresentar descrições
“adequadas”, e em prover evidências “adequadas”, para suas decisões, apesar de
ter grandes dificuldades para definir o significado do que era “ser legal”. No
primeiro momento a Etnometodologia foi vista apenas como um objeto de estudo,
entretanto com o passar do tempo, sob a direção de Garfinkel a Etnometodologia
adquiriu vida própria, consistência e visibilidade dentro da sociologia.
Em tese a Etnometodologia estuda e
analisa as atividades cotidianas dos membros de uma comunidade ou organização.
O enfoque consiste em detectar os métodos que as pessoas usam em sua vida
diária em sociedade, assim como, descobrir a natureza da realidade que elas
constroem. Basicamente a Etnometodologia se baseia no fato relatado, onde a
linguagem ou a fala desempenham um papel fundamental no seu esquema analítico.
Para
Garfinkel o que torna a interação social possível e estável é o fato de que a
sociedade é constituída de uma estrutura de regras e conhecimentos
compartilhados e tácitos. Gouldner faz uma crítica a etnometodologia de
Garfinkel ao declarar que em sua abordagem, Garfinkel faz com que as essências
sejam relegadas e as aparências seja exaltada. Gouldner ainda declara que a
sociologia de Garfinkel é uma rebelião contra a ordem das convenções sociais da
época.
Nenhum comentário:
Postar um comentário