sexta-feira, 8 de março de 2019

SÍNTESE do TEXTO: Construcionismo - Interacionismo e Etnometodologia


Texto de: Teresa Maria Frota Haguette 


O Interacionismo teve origem no fim do século XIX, mais especificamente na sociologia de Charles H. Cooley, W. I. Thomas e George H. Mead, sendo que dos três nomes mencionados, houve maior protagonismo na pessoa do Geroge H. Mead. Havia alguns pontos em comum entre eles, no entanto a obra de Mead foi a que mais contribuiu com o Interacionismo.

A obra de maior importância de Mead foi Mind, Self and Society, com foco na área da interação simbólica. Sua preocupação pautava-se em ilustrar suas proposições a partir de fatos da vida cotidiana. Sua teoria se opôs ao behaviorismo, propondo uma instintiva investigação compreensiva de aspectos do comportamento.

Para Mead, toda atividade grupal se baseia no comportamento cooperativo. No tocante ao humano, sua associação não surge do acaso, em síntese envolve uma resposta as intenções dos outros no contexto presente e futuro. O elemento fundamentador é o consenso por meio dos sentidos compartilhados. Na medida em que os seres humanos conseguem interagir a partir da compreensão dos seus próprios gestos, configura-se uma relação, isso não quer dizer que as respostas são homogêneas, cada um responde de uma forma diferente. Desta forma o comportamento do ser humano é uma replicação do que foi internalizado nesta relação. Portanto toda e qualquer unidade de ação, seja ela um indivíduo, uma familia, uma escola, uma igreja, etc., é construída a luz de uma situação especifica, tudo irá passar pela interpretação de uma situação.

 O que Mead quis dizer é que todo ser humano possui um self, a forma com que ele age socialmente com as outras pessoas é a forma com que age consigo mesmo, logo é possível afirmar que o ser humano é uma construção daquilo que está ao seu redor, ele absorve tudo o que está a seu alcance visual e audível e passa a construir-se a se próprio desde os primeiros sinais despertados no início da vida. Interpretando o texto de Mead, o Meltzer vai dizer que o self representa um processo social existente no indivíduo, aonde o eu, é a tendência impulsiva do indivíduo e o mim, representa o outro incorporado ao indivíduo.

Dois pontos é importante serem considerados, o primeiro é de que o self não é um ato social estático, ele evolui e se modifica na medida em que há mudança e alterações nos padrões das interações, assim como, o self, não é um agente passivo sujeito aos impulsos e estímulos. Troyer vai afirmar que o self, está primariamente procurando certos estímulos, e que qualquer coisa que façamos determinará um estimulo que influenciará nas atitudes e ações.

Mead afirma que o sistema nervoso central e o córtex são indispensáveis para o desenvolvimento da mente, sem o bom funcionamento destes o self é comprometido. No entanto o organismo sozinho tampouco irá lograr êxito neste contexto, é a interação destes dois elementos que dará forma inteligente ao comportamento. A mente é social, e seus funcionamento é seletivo, ou seja, ela age de forma intencional selecionando aquilo que é relevante e desprezando o que não. O ambiente circundante do ser humano é constituído por “objetos”, porém diferentemente do animal irracional o humano tem a capacidade de selecionar o que lhe aprazível para constituir seu próprio ambiente e isso se dá por meio da percepção.

Apesar de ser considerada original e coerente a obra de Mead não passou desapercebida dos críticos, Meltzer chama a atenção para a ausência de uma proposta metodológica por exemplo e da falta de evidencia sistemática para seus posicionamentos. Em contrapartida Meltzer considera que as contribuições foram significativas, dando destaque para o self, a concepção de “ato”, e a maneira como os indivíduos constroem seu mundo comum, ou seja, o ser humano não é um ser passivo que responde aos estímulos externos. Vale ressaltar que muitas destas críticas estão ancoradas no contexto da psicologia social, mas não no tocante a sociologia.

Coube a H. Blumer aportar relevância aos estudos clássicos da abordagem interacionista que lhe faltava apresentar clareza dos pressupostos básicos. Numa tentativa de ser fiel al máximo a Mead, no tocante a natureza da sociedade e da vida em grupo, a natureza dos objetos, da ação humana e da ação conjunta, Blumer apresenta três premissas básicas do Interacionismo simbólico: se algo tem sentido para mim, logo me manifesto; o sentido surge primariamente da interação social; o processo de interpretação pode modificar e manipular o sentido.

Blumer afirma que o sentido não é intrínseco ao ser, mas decorre da interação entre as pessoas, e que no Interacionismo simbólico o sentido é fundamental. Ainda neste contexto, Blumer ressalta que há um processo de interação de si consigo mesmo, a pessoa engajada ou engajando-se em um processo de comunicação consigo mesma. A partir daí manipula-se os sentidos, checa, suspende, reagrupa e a interpretação passa a ser um processo formativo.

A sociedade humana é um grupo de pessoas que interage, que estão em ação, assim estruturas e organizações são estabelecidas. A sociedade consiste de indivíduos interagindo, e as atividades são respostas de um ao outro, logo pode-se afirmar que o comportamento produz o próprio comportamento. A compreensão da ação das pessoas perpassa identificação dos objetos do mundo das pessoas, estes objetos são suas criações sociais que se fundamenta nas interpretações oriundas da interação humana. O ato de interagir pressupõe que o ser humano possui um self, e a forma como nos vemos é a forma como os outros nos veem e nos define.

O que nos difere do animal é justamente nossa capacidade de fazer “indicações” para si mesmos, portanto ao estar diante dos objetos da vida se faz necessário interpreta-los e dar uma resposta em forma de atitude. Tudo o que ignora o processo de auto-interação, está em desacordo com a perspectiva interacionista, pois para Blumer suas ações são construídas a partir do que se nota, e de como eles avaliam e interpretam o que se nota, assim como, o que será projetado.

No tocante a “ação conjunta” ou coletiva, Blumer afirma que as normas são as mesmas, não importa se a realidade se apresenta de forma individual ou coletiva. Ele firma que não são as regras que sustentam a vida em grupo, mas é o processo social de vida em grupo que cria e mantém as regras.

Blumer afirma que não há um posicionamento metodológico definido nos escritos de Mead, Dewey, Thomas, Park, James, Cooley, dentre outros. No entanto ele assume a responsabilidade de identificar os princípios metodológicos norteadores no caso da ciência empírica. Ao invés de filosófica, ele pretende-se empírica, algo verificável sobre a vida humana em grupo e sobre a conduta humana. A metodologia se refere aos princípios que estão subjacentes, e direciona a tudo o que possui caráter persistente. Um ponto importante aqui é a elaboração de uma concepção que se distancia da discussão de métodos e técnicas. Blumer então levanta 6 pontos que segundo ele são indispensáveis à ciência empírica: uma visão prévia do mundo empírico sob estudo; a elaboração de questões do mundo empírico convertidas em problemas; a determinação dos dados a serem coletados; A determinação de relações entre os dados e o uso de conceitos.

Para Blumer as implicações metodológicas da visão interacionista se sumariza em quatro concepções centrais: ao compreenderem os sentidos dos objetos que compreendem seu mundo elas agem com base nesses sentidos; a associação das pessoas se dá basicamente sobre a influência indicativa e interpretativa de umas para com as outras; ao notarem, interpretarem e avaliarem, os atos sociais se materializam; as inter-relações são questões moventes e não estáticas.

Blumer afirma que a realidade social não pode ser percebida através de conceitos definidos, mas de conceitos sensibilizantes, contrariando Kuhn que busca previsões universais da conduta humana. Blumer considera o comportamento humano indeterminado e imprevisível, visão que contraria a visão da escola de IOWA. Uma outra divergência entre os dois é que para Kuhn no tocante ao self, os padrões são estáveis e previsíveis, já Blumer a considera dinâmica.

§  Construcionismo: Etnometodologia

   A Etnometodologia possuía como foco central apresentar descrições “adequadas”, e em prover evidências “adequadas”, para suas decisões, apesar de ter grandes dificuldades para definir o significado do que era “ser legal”. No primeiro momento a Etnometodologia foi vista apenas como um objeto de estudo, entretanto com o passar do tempo, sob a direção de Garfinkel a Etnometodologia adquiriu vida própria, consistência e visibilidade dentro da sociologia.
Em tese a Etnometodologia estuda e analisa as atividades cotidianas dos membros de uma comunidade ou organização. O enfoque consiste em detectar os métodos que as pessoas usam em sua vida diária em sociedade, assim como, descobrir a natureza da realidade que elas constroem. Basicamente a Etnometodologia se baseia no fato relatado, onde a linguagem ou a fala desempenham um papel fundamental no seu esquema analítico.

Para Garfinkel o que torna a interação social possível e estável é o fato de que a sociedade é constituída de uma estrutura de regras e conhecimentos compartilhados e tácitos. Gouldner faz uma crítica a etnometodologia de Garfinkel ao declarar que em sua abordagem, Garfinkel faz com que as essências sejam relegadas e as aparências seja exaltada. Gouldner ainda declara que a sociologia de Garfinkel é uma rebelião contra a ordem das convenções sociais da época.

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