Fonte:
PATROCINIO, Tomás. Para uma genealogia da cidadania digital. Educação, Formação & Tecnologias, vol. 1 p. 47-64;
BUSTAMANTE, Javier. Poder comunicativo, ecossistemas digitais e cidadania digital. p. 11-35;
DI FELICE, Massimo. Net-ativismo e ecologia da ação em contextos reticulares.
A despeito da evolução e do percurso histórico dos conceitos
de cidadania, quero iniciar minha reação ao texto afirmando que é possível a
cidadania em todos os povos. É importante pensar e teorizar a respeito, as
delimitações oriundas do exercício do pensar sobre tais fenômenos são
essenciais para o avanço social. Ao afirmar que é possível a cidadania, me
apego ao elemento da civilidade como um dos fatores determinantes desta
possibilidade. A civilidade deve ser um ideal de toda nação, povo e território
habitado pelo ser humano; penso ser ela uma condição sine qua non do processo
de cidadania. O exercício da civilidade lança as bases fundamentais para se
alcançar um nível de cidadania suficiente para dar sustentabilidade social a
uma nação, isso não quer dizer que intempéries não surgirão e que desajustes
sociais não ocorrerão, mas asseguro que será muito mais fácil superar os
problemas sociais na medida em que estas bases estiverem muito bem alicerçadas.
O ser humano é um ser gregário, que possui sentimentos,
anseios e desejos que lhes são essencialmente naturais. A vida social lhe é
natural, relacionar-se é um fator determinante para o seu desenvolvimento e
dar-lhe uma condição social política e jurídica humanizada talvez seja uma
condição mínima para o seu melhor desempenho civil. Penso ser indissociável a
pessoa do civil no tocante ao ser humano, me parece notória a relação intrínseca
destes dois elementos desde seu nascimento, tirar-lhe isso é proporcionar uma
ruptura na sua dignidade. O empoderamento sócio-político do ser humano me
parece ser um caminho seguro, desde que, em suas bases sejam claras e evidentes
a presença do respeito e da liberdade para exercer suas funções civis em seu cotidiano.
O contexto político social do presente momento é complexo e tende a tornar-se
cada vez mais na medida em que novos estágios vão sendo agregados a trajetória
da humanidade, o advento da tecnologia tem proporcionado diversos fenômenos que
requerem bastante atenção e sensibilidade principalmente no tocante as relações
sociais. Os ciberespaços não devem ser terra de ninguém, e de fato não são,
apesar de que alguns optam por viver como se fosse; sabemos que todo processo
civilizatório passa por diversos estágios de maturação até alcançar o amadurecimento,
no entanto a falta de atenção política e regulação pode gerar percas
incomensuráveis na formação civilizatória e, a educação é sem dúvida um
elemento chave para conduzir este processo.
A cidadania digital não é possível
sem ter a educação como sua norteadora, as tecnologias digitais estão aí, são
reais e seu movimento é linear e veloz, não podemos negar, tendo em vista este fenômeno
fica cada vez mais evidente a necessidade de emancipar os cidadãos neste novo
contexto. O mundo é definitivamente um país global, logo, o que ocorre em um hemisfério
certamente exerce influência no outro e vice-versa, as interconexões são cada
vez mais sofisticadas tecnologicamente e, por conseguinte culturalmente,
economicamente e politicamente. Não podemos afirmar que a globalização seja antagônica
ao processo civilizatório nem a cidadania humanizada e muito menos digital,
muito pelo contrário, ela abre portas, estende pontes e possibilita uma
diversidade de todas as ordens nas relações humanas, no entanto se faz
necessário como dizia lá em meu interior, “colocar cabestros”, impor limites,
domá-la em suas variáveis que se aproximam de “selvagens”, mas ratifico a
grande possibilidade de se tirar muito proveito de tudo isso. Notoriamente a
globalização engendrou um novo cidadão em nossos dias e me parece que assim
será por um bom tempo daqui para frente, é o cidadão cosmopolita, universalista,
capaz de estar em diversos lugares ao mesmo tempo sem que necessariamente esteja
presente fisicamente, seja economicamente, socialmente ou politicamente é possível
transitar digitalmente e o que é mais impressionante, simultaneamente de forma instantânea
e eficaz, seja comprando, instruindo, capacitando-se, relacionando-se de um
modo geral. É o que para alguns pode-se chamar de cidadania supranacional,
ainda que outros não aceitem esta definição, se não isso, muito perto disso
estamos; Pode-se alguém pensar que isso seja desvalorizar a cidadania nos moldes
que conhecemos hoje, pelo fato de nos distanciarmos fisicamente e perdemos a essência
do toque e da química gerada pelos sentidos sensoriais, mas assim como ocorre
no mundo da cultura midiática, talvez um modelo de cidadania não substitua o
outro, talvez seja possível caminhar juntos, mas para que isso ocorra penso ser
necessário regular, propor políticas públicas que perpassem a formação inicial,
o acompanhamento e o desenvolvimento destas relações entre os cidadãos, pois de
outra forma é possível vislumbrar no curto prazo o enfraquecimento do
Estado-nação e este não é um bom sinal política e culturalmente.
Estamos convergindo para o exercício
de uma nova cidadania, é a cibercidadania, com todas as suas complexidades,
suas possibilidades e acima de tudo seu desafio sociocultural. O que ensinar
nas escolas em todos os seus níveis? A adequação do ensino certamente não se
harmoniza em sua inteireza com os moldes do século passado, isso não quer dizer
que os princípios não permaneçam, mas os métodos certamente devem passar por
uma revolução, são universos quase que totalmente diferentes, ao mesmo tempo pergunta-se
o que aprender? Quais as prioridades do currículo e qual deveria ser a forma de
abordar cada assunto? Veja, é impossível não assumir riscos nesta nova
realidade da cibercidadania, os riscos fazem parte da história humana e são de
grande valia para impor limites em determinados contextos que se parecem nociveis
as relações sociais de bem-estar, mas esta nova realidade pressupõe autonomia, assim
como, privacidade, logo talvez seja impossível viver de outra forma. O cidadão
da cibercidadania é, como nunca antes fora, cidadão produtor de informação em
potencial sem precedentes, e a distância entre ele seu pensamento e a produção
de conteúdo não passa do alcance de seus dedos em posse de uma smartphone.
As comunidades virtuais exercem
um papel interessante no desenvolvimento desta nova modalidade de cidadania,
assim como, nas comunidades físicas elas são pontos de encontros para a criação
e desenvolvimento de relações, o grande diferencial talvez seja que é possível
haver diversidade, seja de gênero, física ou até mesmo de pensamento, não necessariamente
as interconecções podem ocorrer de forma homogêneas, na realidade caracteriza-se
mais pela heterogeneidade de todos os aspectos. No entanto há de se considerar
que não é impossível que esta realidade virtual se materialize fisicamente, na
medida em que as demandas e as relações se intensificam e os interesses se
afunilam o que é virtual facilmente torna-se físico em suas mais variadas
formas.
Definitivamente o conhecimento, a
cidadania, a educação e a cultura na era global serão elementos mais do que
preponderantes para o desenvolvimento de uma nação em todos os seus aspectos. A
sustentabilidade sócio econômica perpassa por estes aspectos, a visão de futuro
é ampliada na medida em que novos níveis dentro destas quatros perspectivas são
alcançados e, novos degraus são superados. Em decorrência deste contexto penso
que estamos diante da necessidade de um novo paradigma educativo, se é que ele
já não existe e me falta apropriar-se teoricamente do mesmo; estamos dentro do
espaço do saber, aonde tudo é facilmente acessado em suas múltiplas formas, a
ciberdemocratização possibilita inúmeras possibilidades educacionalmente,
culturalmente e economicamente aos seus concidadãos. As políticas públicas
educacionais no contexto das TIC nunca foram tão necessárias como nos dias de
hoje e certamente se farão ainda mais necessárias no amanhã.
Concluo com a percepção de que
estamos vivendo em uma nova cultura de aprendizagem e cidadania, aonde tonar-se
um cidadão digital é desafiador, assim como, urgente; e ao que parece possibilitador
de novas conquistas contextualizadas aos ciberespaços. Em harmonia com este
pensamento, percebe-se que o elemento básico para usufruir destas novas experiências
tecnológicas é estar aberto e ter uma visão crítica-construtiva e inslusiva desta
nova realidade e no campo da educação isso implica primordialmente na
implantação das novas TIC em forma de políticas públicas.

O desenvolvimento de políticas públicas para a democratização das tecnologias digitais tem sido o grande desafio dos governos, nos mais diferentes países. No entanto, essa pauta ainda não foi incorporada pela sociedade, estando os processos prioritariamente na mão do mercado. Por outro lado, a parcela da sociedade que tem acesso, apropria-se desse ecossistema para reivindicar direitos, embora não tenha visto ainda, com a força necessária, a reivindicação do direito ao acesso e à comunicação nos movimentos sociais. Uma pauta muito atual e importante!
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