Texto de: Maria Aparecida Viggiani Bicudo
A primeira grande contribuição da
fenomenologia a educação é a proposta do não estabelecimento de limites para o
seu desenvolvimento como todo, seja individual ou coletivo. Ao mesmo tempo se
propõe o rigor procedimental sem perder de vista as possibilidades de
intervenção em toda e qualquer ação. A busca pelo sentido e pelo significado
pautam o modo de trabalho da realidade escolar, sem perder de vista o princípio
do esclarecimento do conteúdo e da prática escolar. Se tratando da
possibilidade de intervenção é proposto lançar um olhar além dos limites do
ambiente da sala de aula, visando obtenção de maior consciência e de
engajamento. A não imposição de uma verdade teórica e ideológica
preestabelecida contribui para uma harmonia entre a fenomenologia e a educação
no contexto da prática pedagógica e na pesquisa do campo educacional.
Chama-se a atenção para uma
característica preponderante da fenomenologia que é sua capacidade inesgotável
de reinterpretação dos fenômenos, apesar de complexo por se tratar do campo da
subjetividade, o rigor aplicado gera credibilidade. Apesar de ter como
característica contundente a intencionalidade, a ideia de absoluto não cabe em
seu escopo conceitual.
Considerando a ideia de que no
mundo natural o objetivo diz respeito
as coisas em si, ou seja, tudo aquilo que acontece sem nossa percepção, pode-se
considerar que o indivíduo é um ator ingênuo a aquele contexto particular, pois
neste contexto a mente é apenas uma parte das coisas existentes. Na medida em
que as “verdades” que compõem este ambiente ainda não percebido, veem à tona e se
faz necessário uma intervenção adequada, consciente, com intencionalidade
baseada na reflexão.
Para a fenomenologia ser consciente
é ser intencional, logo todo ato está fundamentado essencialmente na
consciência. Todo objeto é objeto intencional, sendo assim, o mundo é
intencional. O exercício da reflexão possibilita a ampliação do plano de
avaliação dos atos da consciência, é passível de tornar-se um objeto
intencional e requer distanciamento para maior e melhor compreensão. Neste contexto
a crítica ao conhecimento humano é inerente a experiência humana, é dar um
passo atrás e olhar o vivido, é dissociar e compreender o contexto em detalhes.
A objetividade do mundo natural é o
ponto de partida para a obtenção das ideias claras e distintas, tendo como
objetivo explica-lo. A forma transcendental para justificar é composta de exame
rigoroso que visa gerar indivisibilidade, pois o objetivo é construído na
subjetividade e na intersubjetividade.
Não se trata de negar o mundo, a
proposta é lançar um novo olhar sobre tudo e todos, a investigação e a
intencionalidade são elementos chaves neste cenário dinâmico e subjetivo. A
ideia central é viver consciente, estar atento ao mundo e a si próprio, e
tornar este aspecto habitual a ponto de dar relevância a existência; é
envolver-se, sentir-se dentro, viver a experiência.
Para explicar a compreensão do
mundo estranho, a fenomenologia de Hesserl crer que a compreensão inicial da
própria cultura, ou seja, o mundo familiar da cultura da pessoa é estranho de
outras culturas, logo o homem tende a construir o outro a partir de seu próprio ego. Sendo assim, a pessoa é
correlativa à comunidade e suas propriedades habituais cotidianas.
É importante abstrair para além da
linguagem dos ideais subjetivos, fundamentar-se no mundo-vida, atentar para a
totalidade das experiências humanas, mas sem deixar de entender as
características estruturantes e organizadoras dessa relação. Me parece ser uma
condição sine qua no compreender que
há o outro no mundo horizonte, afim de
que haja maior compreensão do fluxo continuo subjetivo-intersubjetivo-objetivo.
No contexto da atitude natural da fenomenologia e educação é tratada como um
objeto passível, o aluno e o professor são sujeitos do mundo físico, o mesmo
ocorre com o ensino. Na relação eu-outro entre aluno e professor constroem-se
as bases das relações pessoais e sociais com características afetivas
cognitivas e psicossociais. Nestas relações ocorrem coisas no campo objetivo e
subjetivo e estas necessitam serem interligadas, afim de se chegar à conclusão
da adequação ou não do conhecimento gerado, seria o mesmo que avaliar o que foi
aprendido em relação ao que foi ensinado. Neste sentido a educação seria tido
como processada na medida em que a meta fosse alcançada por ambas as partes.
No
contexto do mundo-vida escolar um elemento é fundamental e deve ser colocado em
prática que é trabalhar a percepção e a intuição, é fazer com que o mundo ganhe
sentido para o professor e para o aluno em todo contexto de atividades
desenvolvidas por ambos, visando uma percepção mutua. O ponto chave para que o
aluno passe a ter um olhar fenomenológico é a reflexão, e esta tende a ser mais
proveitosa quando se origina na vivencia.
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